Candidíase (Candidiasis)




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De entre todas as suas espécies, a Candida albicans é a mais comumente encontrada em pacientes com quase todas as formas de candidíase.
Este fungo pode infectar qualquer tecido e causar as mais diversas infecções nos mais diversos órgãos do nosso corpo.
A cândida albicans é um fungo que causa a infecção conhecida como candidíase.


A Cândida cresce melhor em superfícies húmidas e quentes, motivo pelo qual é uma causa tão frequente de vaginites, especialmente durante a gravidez, dermatites causadas pelo uso de fralda ou infecções da mucosa bucal.
Apesar da elevada taxa da presença da Cândida no nosso organismo, estes microorganismos só se tornam patogénicos caso ocorram alterações no mecanismo de defesa do hospedeiro.


A Candidíase não é uma Doença Sexualmente Transmissível embora o contacto sexual com uma pessoa afectada pode aumentar o risco de desenvolvimento desta patologia, assim como a proliferação da cândida de uma zona do corpo para outra zona.



3 linhas de defesa no combate à Cândida


  1. A nossa pele é a primeira e mais forte defesa contra a cândida. A pele age como uma barreira que a cândida não consegue penetrar. Quando a superfície da pele se rompe, mesmo que num corte imperceptível, a cândida pode invadir nosso corpo, multiplicar-se e causar uma infecção.
(Nota: Este é o caso de mulheres que têm crises de cândida quando têm relações sexuais.
Através do acto sexual, pequenas rupturas na sensível e fina pele da vagina permitem que a cândida entre no corpo e através da alimentação que obtém ao ter acesso ao sangue, consegue-se multiplicar suficientemente para causar uma infecção caso o corpo da hospedeira apresente as condições necessárias: o corpo não se consegue defender a tempo (sistema imunológico fraco) + alimentação com elementos que favorecem a reprodução e crescimento do fungo.)

  1. A nossa segunda linha de defesa são os anticorpos. Agem diretamente atacando fungos, ajudando as células sanguíneas a matarem a Cândida.


  1. A nossa terceira defesa são as “bactérias amigas”. Culturas vivam, também chamadas lactobacilos vivos, bífidos ou probióticos, que vivem na nossa pele, intestinos, estômago e vagina (mucosas). Elas defendem-nos da Cândida porque competem com esta por alimento, nutrientes, alterando o seu ambiente, tornando-o hostil para ela. Esta alteração resulta na mudança na acidez e salinidade do intestino, pele e vagina, e na secreção de substâncias toxicas para os microrganismos como é o caso da cândida.



Reacção com os antibióticos

Certos fungos e bactérias não possuem muita sofisticação e são mortas pelo mesmo medicamento toda vez que administrado. No caso da cândida, como ela é mais avançada, ela tem o poder de realizar mutações em seu ADN para se tornar resistente aos medicamentos. Por esse motivo, pessoas que apresentam candidíase recorrente chegam num ponto em que antibióticos não mais funcionam para matar o fungo.



Diversos tipos de infecção por candidíase
segundo a medicina convencional


  • Candidíase oral, boca e garganta
As infecções por Candidíase na cavidade bocal ou na vagina, produzem umas placas esbranquiçadas e superficiais, assim como membranas que se desprendem com facilidade, deixando uma superfície irritada e eritematosa. Este tipo de candidíase é popularmente conhecida como “sapinho” nos bebés. É um quadro relativamente simples e os sintomas desaparecem rapidamente.


  • Candidíase cutânea (pele)
A Candidíase produz lesões eczematosas cutâneas em regiões mais húmidas da pele, vermelhidão, erupções e por vezes descamação.
As áreas mais comummente afectadas são as áreas onde há fricção de pele e isso permite que se abra em fissuras ou mesmo feridas, área abaixo dos seios, virilhas, entre dedos, área ao redor do ânus, axilas, parte interior da coxa, umbigo.


  • Candidíase peniana
Homens não circuncisados têm uma maior probabilidade de apresentarem sintomas da doença na glande do pénis através da balanopostite, nome dado a inflamação da glande.
Os sintomas são, corrimento que sai do canal da uretra que pode ser branco ou levemente amarelo e aumento da sensibilidade que pode ser sentida após o acto sexual.
Em homens com sistema imunitário muito debilitado pode ocorrer inflamação severa, inchaço e aparecimento de pontos brancos.


  • Candidíase das unhas
Ocorre mais frequentemente em indivíduos cuja profissão exija o contacto frequente das mãos com água. A pele em volta da unha apresenta-se vermelha e dorida por um ou dois dias. Esporadicamente há eliminação de pus. Se a infecção persistir, a pele por baixo da unha pode ficar igualmente infectada e a unha começar a apresentar sintomas de enfraquecimento ou endurecimento anormal, irregularidades ou pontos esbranquiçados.






  • Candidíase interna ou no sangue
Sem dúvida a forma mais grave e seria de candidíase. Ocorre exclusivamente em pessoas hospitalizadas com o seu sistema imunológico altamente debilitado.


  • Candidíase intestinal
O mau funcionamento do intestino afecta todo o corpo. A Cândida ao reproduzir-se liberta toxinas, que ao serem absorvidas pela parte intestinal, afectam todo o corpo.
Os sintomas mais comuns são cefaleia, dores musculares, astenia, mudanças de humor, obstipação, irritabilidade, dor abdominal. Como se pode perceber, cada um dos sintomas pode ser medicado separadamente ou diagnosticado como alguma outra doença. Enquanto isso a Cândida mantem-se intacta e reproduz-se.


  • Candidíase vaginal
Os sintomas da candidíase vaginal podem variar um pouco, mas por norma o quadro é clássico, ardor na vagina, comichão, irritação na vulva, corrimento branco ou levemente amarelado (sem cheiro ou com cheiro de levedura), grosso e opaco que se assemelha ao sémen, vermelhidão, inchaço, desconforto e/ou dor durante a penetração, assaduras, urina frequente, disúria, ardor ao urinar.






Porque surge a candidíase?


Sistema imunitário: A defesa de cada organismo varia de pessoa para pessoa, o sistema imunológico é extremamente sensível ao stress e mudanças emocionais.


Alimentação: A cândida albicans alimenta-se de açúcar e reproduz-se por fermentação. Quando a sua dieta é rica nestas substâncias (açúcar e fermento), a possibilidade de despertar crises repetidamente é muito grande.


Alergias: Uma nova vertente no estudo da candidíase defende a teoria de que algumas pessoas desenvolvem a candidíase através de alergias a certos alimentos ou elementos químicos que promovem o crescimento da cândida albicans.





Causas secundárias: apontadas pelos médicos como as causas mais frequentes para despertar crises recorrentes dependem intrinsecamente destes factores:
  • Uso de antibióticos;
  • Uso de roupas apertadas;
  • Uso de anticoncepcionais;
  • Uso de duches vaginais, cremes perfumados, talcos, ou sprays desodorizantes na área vaginal;
  • Uso de pensos diários;
  • Uso de medicação com corticóides;
  • Dietas pouco equilibradas para perda de peso;
  • Diabetes;
  • VIH;
  • Uso de roupas molhadas por longos períodos;
  • Distúrbio bipolar ou outros distúrbios emocionais;
  • Stress e ansiedade;
  • Falta de higiene;
  • Insónia/sono não reparador.


Os factores que predispõem uma pessoa a esta doença são os factores emocionais em conjunto com os três elementos analisados (sistema imunológico + alimentação + reacção alérgica).


Diagnóstico e Tratamento farmacológico


O diagnóstico desta patologia é feito através de um exame ginecológico (papa nicolau, citologia, colposcopia) e análise microscópica das secreções.


O tratamento mais recorrente para tratar a candidíase, em medicina ocidental é o uso de antibióticos, em especial o “Fluconazol”.



A Candidíase à luz da MTC



Num contexto mais global, estas patologias são todas classificadas no campo de uma comichão localizada na vulva e/ou vagina, que poderá ser acompanhada ou não de uma descarga excessiva de fluidos vaginais. Para a medicina chinesa a candida albicans é a infecção fúngica mais comum nas mulheres.





Os factores que a predispõem para esta doença são o uso de antibióticos, gravidez, stress, diabetes, imunodeficiência e agentes imunossupressores como os citotóxicos, as drogas e os corticóides.
Em MTC os sintomas mais frequentes são a leucorreia, comichão, disúria e dismenorreia. Também poderá não haver leucorreia ou então que seja em muito pouca quantidade.




Etiologia


  • Problemas emocionais
Estas situações por norma são originadas por uma afecção do órgão Fígado por um quadro emocional excessivo, causando uma estagnação do Qi do Fígado. Situação que, com o passar do tempo e não sendo detectada e tratada atempadamente, se irá transformar em Calor afectando o meridiano do Fígado cujo seu trajecto interno circunda os genitais externos, causando a comichão.
  • Dieta Impropria
O consumo excessivo, diário de alimentos gordurosos, origina a formação de Mucosidades que se acumulam no Aquecedor inferior. A Mucosidade é também, nestes quadros, a principal cauda do comichão e frequentemente ocorre na vulva.
Quando este consumo exagerado de alimentos gordurosos se combina com um quadro emocional excessivo, o Calor no meridiano do Fígado (F) combina-se com esta Mucosidade que gera ainda mais comichão.
  • Trabalho físico excessivo
O trabalho físico excessivo ou mesmo o desporto praticado por um longo período, pode enfraquecer o Baço-Pâncreas.


O Baço-Pâncreas (BP) é responsável pela função de transformação e transporte dos fluidos do corpo. Quando o BP está enfraquecido, estas funções ficam comprometidas, acumulando-se estes fluidos no corpo, originando Mucosidades.

  • Excesso de trabalho
Trabalhar muitas horas por dia, por um longo período de tempo, pode originar uma deficiência do Yin do Fígado e/ou do Rim, órgão que controla os dois orifícios inferiores. Esta deficiência de yin e de sangue causa secura que causa comichão na vulva.

  • Patologia
A patologia inerente a “comichão”, relativo aos quadros de excesso, é o acumulo de Mucosidades no Aquecedor Inferior, que pode ocorrer ou não associada ao Calor, relacionada com os meridianos do BP e do F.
Nos quados de deficiência está associada a uma deficiência de Yin do F e/ou do Rim, tendo uma frequência superior de ocorrências nas mulheres. Nestes casos a deficiência de yin origina uma secura que causa a comichão.
Os três princípios de tratamento básicos são a tonificação do BP, resolver a Mucosidade, clarear calor, matar parasitas, que em termos ocidentais significa tratar infecção fúngica, e para a comichão.



Cuidados a ter

É fundamental ter uma boa higiene íntima, limpeza íntima da frente para trás, a lavagem da vagina duas vezes por dia com sabonete neutro ou natural biológico à base de Tea Tree.
Evitar o uso de roupa muito apertada e dar preferência ao uso de roupa interior de algodão.
Evitar o uso de tampões vaginais, pensos higiénicos e pensos diários durante tempo prolongado, pois impedem que a vagina respire e aumentam o risco de desenvolvimento de infecções.


Deve ser evitado o consumo de açúcares, alimentos gordurosos, farinhas e lacticínios, pois aumentam o risco da proliferação da cândida.



Tratamento em MTC


Mucosidade-calor no meridiano do Fígado
Princípios de Tratamento:
  • Clarear Fígado;
  • Drenar mucosidade;
  • Clarear calor;
  • Matar parasitas – em relação a medicina convencional significa combater a infecção fúngica, função que muitas ervas que matam parasitas têm;
  • Parar comichão.


Deficiência Qi B/P com acúmulo de Mucosidade
Princípios de tratamento:
  • Resolver a mucosidade;
  • Matar parasitas;
  • Tonificar o B/P.


Deficiência de Yin do Fígado e do Rim
Princípios de Tratamento:
  • Nutri o Yin do Fígado e do Rim;
  • Clarear calor vazio.



Conclusão

Estima-se que muitos dos tratamentos naturais que existem para a candidíase já existem há séculos, pois há muito que as mulheres sofrem desta doença.
Muitos dos tratamentos feitos passavam por desintoxicar o corpo pouco a pouco, o tratamento bem como a prevenção passam essencialmente pela dietética e controlo emocional.
Na medicina chinesa tanto a acupunctura como a fitoterapia têm bons resultados no tratamento da comichão, sintoma predominante, embora a completa erradicação da doença possa levar alguns meses.
Os tratamentos externos são fulcrais para o sucesso do tratamento, nos casos comuns temos variadas opções terapêuticas, que incluem cremes, pomadas, loções e medicação por via oral.
O tempo de tratamento, a apresentação a ser usada e o esquema terapêutico devem estar de acordo com a conduta médica, o paciente não se deve automedicar, ainda mais se está apresentando reincidências da micose. É necessário investigar os factores causadores do problema.

Artigo escrito por Catarina Marques Ramos, baseado no trabalho de Cláudia Mota, Ana Sofia Rodrigues e Ana Félix para a disciplina de Ginecologia e Andrologia do 5º ano do curso de Medicina Tradicional Chinesa da ESMTC.